22 de abril de 2013

Cena 3: O plantio


Desperto, sobressaltado, às 4:40 da manhã. É um sono leve, tenso, preocupado. Penso no pouco tempo que me resta, até que o celular dispare o alarme previamente programado. Penso que deveria insistir em tentar dormir, ao invés de pensar incessantemente em você. Penso que deveria me preocupar com coisas que realmente valham o esforço de alguma preocupação. Penso em tudo isso, mas não consigo executar. E, mais uma vez, faço aquilo que não deveria fazer - e aquilo que deveria, isso não faço. Tento engolir à seco a frustração, sem me levantar da cama, sem mover nenhum músculo. Mas o coração, ele insiste em bater, insiste em bombear o líquido que me move, amniótico, até você. Ele não deveria bater tanto, mas não me reconhece a autoridade, involuntário e arrogante. E toda uma programação, elaborada na noite anterior, cai por terra e lençóis – quentes, úmidos, arrependidos. E quando finalmente saio de casa para mais um dia frio de horário comercial, aí sim me dou conta de que ainda não desisti, apenas estou mais cauteloso. Saio para semear com os pés descalços sobre um terreno, às vezes fértil, às vezes morto. E toda uma tentativa de ainda salvar uma existência que, até agora, mostrou-se inútil. Mas não porque eu quisesse, e sim porque não quis. Percebe a diferença?

10 de abril de 2013